quinta-feira, 16 de outubro de 2014

XIII CARURU DE IBEJI E AS PEDAGOGINGAS: Tambor e Ancestralidade!

II TRECHO DO PROJETO TRÊS PEDRINHAS

Por tudo que nasce, saudamos nossos erês!



Sentimento de renovação das forças, reoxigenação e fortalecimento, a cada caruru que é servido, uma página a mais é escrita e acrescentada na história de um povo, e de uma instituição. A história do Caruru de Ibeji e da Casa do Boneco se confundem e se pertencem por serem parte de uma trajetória de muitas lutas, adversidades, surpresas e vitórias. Precisamos agradecer, e fazemos isso como a ancestralidade africana nos educou: com tambor, com dança, com brincadeira, com fartura e com muito trabalho.

A transmissão de saberes ancestrais milenares, resguardados na vivência das nossas mestras e mestres não cabem nas estruturas eurocêntricas que regem o sistema educacional convencional. Para romper com uma educação que não conta a verdadeira história do povo preto, com uma mídia coronelista que descaracteriza a nossa identidade, com o racismo impregnado que mata os nossos jovens diariamente, as pedagogingas se fazem instrumento de educação e formação política dos futuros (e atuais) Zumbis e Dandaras.

A Casa do Boneco existe e trabalha à 27 anos com o empoderamento da infância e da juventude negra itacareense, urbana, rural, quilombola, utilizando para isso as mais diversas linguagens e aprendizados sempre voltados para a ancestralidade africana, afro-brasileira e indígena. 

O Caruru de Ibeji, já na sua 13ª edição, surgiu em agradecimento pela vida de Lori Mafoany que em meio à adversidades de uma gravidez inesperada, nasce de 6 meses e meio e mesmo desenganada pelos médicos resiste com sua saúde e inteligência invejáveis. Tornando-se tradição na cidade, o Caruru de Ibeji a três anos une-se à proposta das Pedagogingas, práticas educativas realizadas através de oficinas, rodas de conversa e tambor, apresentações culturais, celebração religiosa e união dos povos em um encontro que também contempla o II trecho do Projeto Três Pedrinhas.

A abertura oficial do evento foi no dia 24 de setembro de 2014, mas esse processo real de resistência já começou à séculos, quando o nosso primeiro irmão foi capturado em África por uma colonização autorizada pela Igreja Católica e por uma ‘‘supremacia’’ racista branca. Para fazer a abertura do nosso evento não vestimos a roupa da moda, não cantamos a música das paradas de sucesso das rádios comerciais, não falamos de conformismo e nem de pacifismo. Nos enfeitamos com tecidos africanos, batas e turbantes para tocar e cantar o Xirê, saudando as forças da natureza, os Orixás, pedindo licença e permissão aos que nos guiam. Apresentamos @s noss@s oficineir@s, mestres, grupos e coletivos que vieram compartilhar dos seus saberes.






Para aprender e ter contato com a musicalidade de evocação e saudação dos orixás, o Alabê Dito, guardião do saber ancestral da religião do candomblé, enriquece a nossa programação com a oficina de Toques e Cantos de Xirê. Construir o próprio instrumento musical de forma agroecológica e afrocentrada também foi ensinado-aprendido-ensinado na oficina de Confecção de Tambores Afrobrasileiros, facilitada pela representação de Tambores Oraniã (Casa do Boneco), Alma Percussão, Coletivo Casa Preta (Pará) e Casa de Cultura Tainã (São Paulo).

Os tradicionais bonecos não poderiam ficar de fora do nosso encontro, não só por ser uma poderosa ferramenta pedagógica, mas também por ser símbolo significativo e fundador da Casa do Boneco. Tivemos oficina de Confecção de Bonecos com Cabaça, com o nosso grande Mestre Elias e Adriana Reis, onde foi ensinado a produção e manipulação de bonecos, com improvisação de teatro. Também contamos com a oficina de Confecção de Bonecos Gigantes oferecida pela Cia de Teatro de Bonecos Mãos na representação de Cláudio Cruz e Fátima Araújo, e o grupo de jovens que compõem a cia. Foram construídos dois lindos bonecos gigantes que abrilhantaram o cortejo afro e hoje compõem o elenco de bonecos do Ylê D’erê.


Nossos pequenos reis e rainhas se divertiram muito aprendendo sobre suas histórias e entendendo o que é essa tal de identidade em atividades como a Oficina Criativa Ka Naombo, confeccionando os próprios marca-textos iguaizinhos a cada um depois da dinâmica do espelho, facilitada por Adriana Ka Naombo. Também tivemos muitas histórias com a Oficina de Literatura Infantil facilitada por Larissa Pereira; Oficina Cantiga de Erê com Mariana Bittencourt; e a oficina Menina Bonita do Laço, do Torço e do Turbante (Leiturança), facilitada por Carol Cruz e Carla Antelante, nos coroando com lindos turbantes.















Contamos com a belíssima participação do Grupo ELO que ofereceu a Oficina de Hip Hop mediada por Tayrini e Nessita Lopes, mostrando a representação feminina no movimento hip hop de Vitória da Conquista. A Arte do Graffiti também foi muito bem representada pela oficina ministrada por Baga e Bigode (Salvador). Fabrício Silva, graduando em odontologia, nos ofertou uma palestra sobre Espiritualidade e Bioética na Saúde e também uma Oficina de Beat Box. Música e iniciação de técnicas vocais foram aprendidas com a oficina Conta Para Todo Canto, ministrada por Mariana Bittencourt.



As tecnologias, suas ferramentas e linguagens também marcaram presença, tendo representação da Oficina de Edição de Áudio, com Sérgio Melo dando continuidade à formação dos monitores das rádios implantadas pelo Projeto Três Pedrinhas; Oficina Cinema In MOV ministrada por Camila Mota, além de intervenção audiovisual do CineCACoS e transmissão ao vivo da Rádio Indaca Obá FM, que completa um ano!




Para transmitir o melhor às nossas crianças, nos fortalecemos nos saberes dos mais velhos, dos guardiões da ancestralidade, dos guerreiros e guerreiras que há tanto tempo estão na luta por objetivos comuns aos povos originários: Mestre Elias Bonfim ( Grupo Mamulengos da Bahia - SSA ), Yalorixá Mariá Keci ( Terreiro Raizes de Airá - São Felix-BA ), Tata Paulo Sérgio, Ebomi Éder, Mestre TC Silva ( Casa de Cultura Tainã - Campinas-SP ), Mestre Joelson Oliveira ( Assentamento Terra Vista Aratac-BA ), Cacique Nailton ( Aldeia Baixa Alegre - Pau Brasil-BA ), Rosi Rio dos Macacos ( Salvador ), Mestre Jorge Rasta ( Casa do Boneco de Itacaré ), Griot Duza ( Santo Antonio de Jesus-BA ), Alabê Dito ( Terreiro Lobaneku Filha ). 




O nosso encontro agregou mais de 200 participantes, com grupos e representações de instituições e comunidades como: Assentamento Terra Vista, Posto Indígena Caramuru Catarina Paraguaçu, Quilombo Rio dos Macacos, Rede Mocambos, Teia de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica, IF Uruçuca, Quilombo Lagoa Santa, e outros coletivos.





Para a culminância desses cinco dias repleto de atividades, aprendizados e troca de saberes, a celebração do Caruru de Ibeji aconteceu no domingo, dia 28 de setembro. Saindo da Praça São Miguel e rumando para a Casa do Boneco, desfilamos com um lindo Cortejo Afro. Ala de baianas, crianças, comunidades indígenas, militantes, educadores, também bonecos gigantes e pernas de pau, frutos da oficina de confecção de bonecos, tudo no lindo cortejo ritmado pelo toque dos tambores, pelas flores, perfume e banho pipoca. Na Casa, celebramos os Ibejis e foi servido o Caruru, primeiro para os erês e depois para a imensa fila que se forma tradicionalmente para alimentar o corpo com esse delicioso prato da culinária afro-brasileira, e o espírito de muito axé e gratidão.




Para que toda essa movimentação fosse possível, muita gente se mobilizou e trabalhou duro, antes, durante e depois do evento: equipe de infraestrutura; as queridas tias da cozinha Nede, Araci e Aida, também seu Zé Carlos; coordenação executiva e administrativa, assessoria de comunicação, cobertura audiovisual e fotográfica, coordenação pedagógica e de educomunicação.



Alimentados estamos para seguir na luta por um mundo mais do nosso jeito, cuidando da educação das nossas crianças para semear um futuro de liberdade e reparação. Essa é a nossa pedagoginga, nossa educação, nossa ancestralidade, religião e cultura. A cada caruru nos fortalecemos, e a cada novo sorriso de nossas crianças, renascemos. Precisamos agradecer!