sexta-feira, 8 de agosto de 2014

I Trecho do Projeto Três Pedrinhas: unindo o saber ancestral à apropriação tecnológica!




  Norteados pela temática ancestral da cultura do partejar e das ervas sagradas e medicinais, imersos no Encontro de Vivências Agroecológicas no Assentamento Terra Vista, o I Trecho do Projeto Três Pedrinhas (de 01 à 03 de agosto) proporciona dias de aprendizados e ações que unem os povos numa perspectiva de luta e espiritualidade, tradição e tecnologia. O ritual religioso do Toré indígena, a roda, o canto, os maracás e os tambores abrem o nosso encontro com o fortalecimento espiritual, conectando os povos através dos orixás, caboclos, boiadeiros e encantados.




















Vivenciar na roda de conversas com as mestras é ter contato com as guardiãs dos saberes tradicionais, tão essenciais para a vida, o nascimento, a cura dos males do corpo e do espírito. Ao mesmo tempo, nos esbarramos nos dados que apontam o número de 60.000 parteiras tradicionais que não tem o devido reconhecimento, e são rechaçadas por possuir um saber que não é o da caneta.










Dona Josefa, a querida Zefa da Guia (Sergipe) traz de sua comunidade quilombola a experiência em ‘‘pegar menino’’, saber herdado de suas ancestrais que desde os treze anos passou a exercer, sempre aliada à espiritualidade, as rezas, as curas:
‘‘Meu trabalho de parteira é ensinar transportar a vida, um é Deus, o médico dos médicos. Deus deu um saber pra gente, e o trabalho de parteira tem muita responsabilidade e autorização [...] eu trabalho rezando!’’. Não há mal, nem do corpo e nem do espírito que se mantenha diante dos tratamentos, remédios e simpatias que a Dona Zefa nos ensina, de mau-olhado à miomas, ela sempre terá um elixir que cure a sua mazela.





Yalorixá Maria Lameu do Ylê Axé Dakossidê, traz do seu quintal no Recôncavo da Bahia uma grande diversidade de ervas medicinais e de uso tradicional na religião afro-brasileira do candomblé, inclusive apresenta o Obí, fruto importante no culto ao orixá. Com toda sua espontaneidade e simpatia, Mãe Lameu nos conta os seus curiosos 14 partos, que fez sozinha e em casa:


...Fui buscar uma lata de água na beira do rio, porque naquela época eu morava perto do Rio Paraguassu, ai quando eu cheguei na beira do rio, que metir a perna pra pegar a água na lata, se eu não sou ligeira, a neguinha morria afogada, (risos)...”

Na religião do candomblé, Ossain é o orixá que cuida das ervas, e sem as folhas sagradas não existe nenhum fundamento religioso.








Suely Carvalho, coordenadora da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil, que se alia com a Rede Latino-americana de Parteiras, herdeira de gerações de parteiras, traz na sua experiência de mais de 5 mil partos, além da luta em defesa da mulher, e do respeito ao sagrado feminino.

 O contato com a espiritualidade compreende o corpo da mulher gestante em um estágio de iluminação, e a placenta que abriga o bebê é uma entidade, a segunda mãe da vida que está sendo gerada, além de ser um poderoso remédio que previne até mesmo hemorragias na parturiente. O sangue do cordão umbilical, nada mais é que célula-tronco, logo seu poder curativo é enorme.
‘‘...a mulher tem o controle da situação, nós parteiras estamos ali só pra ajudar, jamais podemos nos desconectar de um rito de passagem, tratar de uma maneira mecânica automática como se fosse uma momento qualquer!’’





















O aprendizado da conversa se concretiza a cada vivência, seja na cozinha através das receitas dos remédios ensinadas pelas mestras, seja na prática do plantio das ervas na horta coletiva, no viveiro, na identificação desses remédios na mata e nos quintais da comunidade. Tudo é socializado em apresentação para @s demais companheir@s. 





















Unindo o saber ancestral à apropriação tecnológica, a Rádio Livre ‘‘Aliança Educadora’’ vai ao ar, sendo uma importante ferramenta de empoderamento da comunicação na comunidade, e por ser o aparato de criação de programas radiofônicos que servirão como conteúdo pedagógico para a formação política no cotidiano dessa comunidade e em suas escolas. Além do rádio, o Projeto Três Pedrinhas conta com outros gêneros da comunicação para produção de conteúdos educativos, como o audiovisual, através da produção do vídeo documentário, da fotografia e do jornal impresso, através do Jornal Orí.




















Participaram desse encontro cerca de 200 pessoas de coletivos, comunidades tradicionais e instituições, como: Casa do Boneco de Itacaré, Assentamento Terra Vista, Posto Indígena Caramuru Catarina Paraguaçu, GAIA, Instituto Cabruca, NEPA, UESB, UESC, EVA, CETEP-Maraú, AATR, Quilombo Rio dos Macacos, Assentamento Rio Aliança, CPPP Quilombo da Liberdade. Contamos com a presença de lideranças como: Cacique Nailton, Cacica Maria Muniz, professora Jomária, Dona Zefa da Guia, Mãe Maria Lameu, Suely Carvalho, Dona Socorro, Jorge Rasta, Sr. Zezinho, Joelson, Solange, Deysi, Lorena Aguiar. 





















O Projeto Três Pedrinhas conta com uma equipe técnica formada por: 

Jorge Rasta (coodenação executiva)
Nátali Mendes e Nana Queiroz (Assessoria de Comunicação)
Glauber Elias, Say Adinkra e Vitor Coimbra (assessoria em educomunicação)
Carla Antelante (assessoria pedagógica)
Sérgio Mello (técnico em instalação e produção de programas de rádio)
Fafá M. Araújo, Ismael Silva e Fernanda Pennachia (fotografia)
Casa da Alegria (cobertura audiovisual)
Don Perna (design gráfico)
MONITORES LOCAIS: Dania Jejê, Hugo Xoroquê, Beatriz Odara, Tovi Nascimento, Wilk Muniz e Moisés Muniz Pataxó.
PRODUÇÃO LOCAL: Breno Santiago.
EQUIPE DE APOIO:
Preta Bia
Gominho Neves
Preta Ashanti